the shrinking journey: Rendas: Sou mulher rendeira
Não a das canções populares
Nem a que senta com bilros nas calçadas quentes do nor...
emagrecer, viver, espiritualizar-se, maternidade, filhas, mães, saudades, distâncias, amizades... caminhos
Tuesday, August 23, 2011
Monday, August 22, 2011
Rendas
Sou mulher rendeira
Não a das canções populares
Nem a que senta com bilros nas calçadas quentes do nordeste
Meu artefato é delicado
E mutante
Sem sossego
São palavras
Que rendo
E me rendo a elas
Me enrosco
Nas suas milhares de possibilidades e combinações
Desenhos intricados - como filigramas
Com ares antigos e rebuscados
Mosaicos que formo
A renda do meu esforço
Delicada - mas por vezes brusca e tosca
Querendo ser colcha para acomodar os sonhos
Num balaio de rendas
Onde dormem gatos
Thursday, August 18, 2011
Muro Velho
No muro, o musgo cresce.
E por mais que se limpe,
E por mais que se pinte,
Na ilusão de se recuperar o branco,
Pensando estar renovando o muro,
O musgo cresce.
E deixa a superfície tão lisa
tornando impossível a escalada.
E o muro envelhece.
Como deve envelhecer o musgo
Indo embora com a primeira enxurrada.
Monday, August 15, 2011
Caranguejo
Os caranguejos vivem apressados
Andando de lado e desconfiados
Os olhos fora de orbita
Para observarem o além da própria conta
Catam suas tralhas como quem tem desdém por elas
A boca espumando
Raivosos
Implicantes
Já reparou como não se dão com os vizinhos?
Como vivem medrosos de si?
Da sombra?
Da areia?
E vão se enlameando sempre que podem
Garras prá cima
Ameaçando
… mas são tão frágeis, os pobrezinhos…
Eu tenho a alma carangueja!
Friday, August 12, 2011
Revisão
Às vezes eu quero ser portuguesa
Estar num mundo cheio de azulejos azuis ornados
Elegantes - jardins internos de conventos
Reclusa nos meus pensamentos
Andar de tamancos arrastados
Olhar o mar com desejo de ir ou vontade de voltar
Lavar roupas batendo em pedra
Pensar no rio que corta a minha cidade
E escrever com segurança de Camões, Fernando, Saramago
Dominar minha língua em sua origem
E amá-la de tal forma que ela descance em mim
Seus verbos agitados
Quero brincos de ouro em orelhas cansadas
Os bigodes dos anos nas mulheres doceiras
Lenços longos e enfeitados
Substituindo cabelos
Às vezes quero ser portuguesa
Para seguir pelo mar -
Para poder descobrir o Brasil...
Wednesday, August 10, 2011
Ver
Esses olhos...
Os olhos me assustam.
Não te afligem os olhos?
Eles enxergam o que não há.
Trespassam a zona de fronteira,
O tênue véu da alma,
onde deveriam ficar para perscrutar o ser.
E ali entendê-lo - e possivelmente admirá-lo.
Mas querem espionar a carne.
Querem descobrir riquezas.
E estabelecem um código de estética e de ética.
Vêem um ser que tem e faz
Deixando de lado, rapidamente, como num piscar de olhos,
toda a possibilidade do ser além dos olhos.
Os olhos secam com o vento dos tempos.
E se fecham - extinguem o ser que existe antes da cortina
do ser edênico.
E não tendo mais a lanterna que são seus olhos para iluminar-lhes
o caminho,
Deixam de descobrir o paraíso que há
Quando mergulhamos
Para além-dos-olhos
sem enxergar.
Sunday, August 7, 2011
Rosas
Eu não sei escrever sobre coisas suaves.
Não sei falar da cor da rosa,
nem da brisa,
nem da delicadeza -
o que quer que seja -
de um pássaro.
Na rosa eu vejo o contraste do verde com a cor da flor.
O cetim da pétala com a justeza do espinho.
E não consigo sentir perfume.
Mas sei contemplar!
Sei contemplar a flor,
o vento na flor,
o pássaro no vento.
E vejo o mundo em movimento.
Vejo o dia desabrochar num botão.
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