Friday, September 2, 2011




A torneira se abriu
Numa enxurrada de palavras e idéias
Inundou a alma
Que rangia enferrujada num vazio de inspiração.
Difícil controlar o fluxo
A corrente tem vontade própria
Vai solta, sem precaução – 
É melhor seguir o natural.
Os respingos refrescam
Mas o arranhar das pedras 
Ferem meu chão
A queda é conseqüência – 
O clímax da minha navegação
Sem controle – sem bússola ou leme
Sigo à deriva dessa torrente
Hei de alcançar o vale
Que expande-se em minha mente.

Tuesday, August 30, 2011

duna




Construí um mundo
fundado em areia
Pilares frágeis
que as ondas abalam
e o vento esfarela
não dá apoio ao passo
e sigo tombando - meio fraca, meio zonza
chão do desequilíbrio
martírio da caminhada
Mas é um mundo em constante transformação
reinterpretado pelos humores da natureza
o vento dá dunas - modifica o terreno
geografia da inconstância
O dorso da duna - um fio
cadência no passo
como no trote da mula
rítmo e desaconchego.
Nesse mundo movediço me instalei
Faço do atrito minha morada

Saturday, August 27, 2011

A Ponte





A ponte que a menina atravessa
É cheia de armadilhas
Promete um mundo do lado de lá -
Um mundo além da margem da vida.
É uma arapuca
Uma ilusão
A ponte não leva 
Nem traz
Melhor seria seguir o rio
Esse rio que sempre tem
um curso que se renova
O rio lava e leva
pra longe
os dejetos
Traz a nova possibilidade
um trajeto caudaloso 
sem monotonia
Na carona das chuvas
No descanso das secas
Deixando as pontes pra trás
Fazendo da menina
o leito onde descansa
as águas novas.

Tuesday, August 23, 2011

the shrinking journey: Rendas

the shrinking journey: Rendas: Sou mulher rendeira

Não a das canções populares

Nem a que senta com bilros nas calçadas quentes do nor...

Monday, August 22, 2011

Rendas





Sou mulher rendeira
Não a das canções populares
Nem a que senta com bilros nas calçadas quentes do nordeste
Meu artefato é delicado
E mutante
Sem sossego
São palavras
Que rendo
E me rendo a elas
Me enrosco
Nas suas milhares de possibilidades e combinações
Desenhos intricados - como filigramas
Com ares antigos e rebuscados
Mosaicos que formo
A renda do meu esforço
Delicada - mas por vezes brusca e tosca
Querendo ser colcha para acomodar os sonhos
Num balaio de rendas
Onde dormem gatos

Thursday, August 18, 2011

Muro Velho





No muro, o musgo cresce.
E por mais que se limpe,
E por mais que se pinte,
Na ilusão de se recuperar o branco,
Pensando estar renovando o muro,
O musgo cresce.
E deixa a superfície tão lisa
tornando impossível a escalada.
E o muro envelhece.
Como deve envelhecer o musgo
Indo embora com a primeira enxurrada.

Monday, August 15, 2011

Caranguejo




Os caranguejos vivem apressados
Andando de lado e desconfiados
Os olhos fora de orbita 
Para observarem o além da própria conta
Catam suas tralhas como quem tem desdém por elas
A boca espumando
Raivosos
Implicantes
Já reparou como não se dão com os vizinhos?
Como vivem medrosos de si?
Da sombra?
Da areia?
E vão se enlameando sempre que podem
Garras prá cima
Ameaçando
… mas são tão frágeis, os pobrezinhos…
Eu tenho a alma carangueja!