Sunday, August 7, 2011

Rosas




Eu não sei escrever sobre coisas suaves.

Não sei falar da cor da rosa,
nem da brisa,
nem da delicadeza -
o que quer que seja -
de um pássaro.

Na rosa eu vejo o contraste do verde com a cor da flor.
O cetim da pétala com a justeza do espinho.
E não consigo sentir perfume.

Mas sei contemplar!

Sei contemplar a flor,
o vento na flor,
o pássaro no vento.

E vejo o mundo em movimento.
Vejo o dia desabrochar num botão.

Friday, August 5, 2011

Poema sem encomenda

Ela me pediu um poema
Como se um poema fosse algo assim
Que se pede.
Um poema se dá
E se esconde
Nas entrelinhas que oferece.
Dá-se um poema
Como uma ninhada de cães ou de gatos
Que se abandona
Sem criar laços.

Doa a quem doer.

Thursday, July 21, 2011

Mentira




Minha história é de poesias.
Não sei contar um causo com coerência
E consistência…
Meus causos são todos enfeitados -
Que nem asa de borboleta.
Mas assim como as borboletas,
Teimam em fugir de mim
E seguir com as flores e outras lorotas.
Sim, porque as flores andam meio mentirosas nesses dias quentes e secos.
Esqueceram de brotar e colorir os jardins -
Foram embora e levaram as borboletas e os meus causos enfeitados
Fiquei sem papo
Sem as palavras ornamentadas que me enchem essa tarde de preguiça
Melhor ver se acho sapos

Saturday, July 16, 2011

De agullhas e nós


Uma agulha na trama do pano
No pano caminhos atando
Arrematando os anos
Dos anos tecidos fio a fio
Nos fios que delimitam o pano
O pano de fino tecido
Tecido ano a ano
No zig-zag da agulha
Da agulha que comete enganos
Nos enganos desse pano
Tramando nós
Nos nós que desatamos.

Friday, July 15, 2011

when I decide to write in English

I have this desire to translate all my writing from Portuguese into English, but every time I try it, the process leads to another story and it doesn't look like translation -  it is a completely new story! And then I feel I have to translate this new created story into Portuguese and the loop will have no end... so I don't translate!

I've been in America for almost 15 years now and I still write most of my poems and stories in Portuguese - why? I don't know! I guess my set of inspiring gods or muses are still linked to my "account" in Brazil. I wonder how I can have them migrate here with me... or should I? I really don't know, but I have better chances, or a bit of a chance to get published here than in Brazil!

I guess I'll have to attempt not translating, but starting from scratch - new stories, new poems, new songwriting - new me in this good ole soul - my American Self as a story teller!


Friday, July 8, 2011

Uma Coisa Inventada - II

Os olhos ficaram fechados, apertados para não deixar entrar nenhuma luz, nenhuma imagem e ela se deixou mergulhar naquele mundo do invisível... era surpreendentemente calmo e silencioso - tudo parecia ser sussurrado. E havia uma certa melodia sendo murmurada e repetida - como um credo, um mantra! Resolveu abrir os olhos devagar, para que a luz não lhe invadisse os olhos violentamente - e, para sua surpresa, a luz era suave, uma penumbra de sono da tarde - janelas fechadas peneirando o dia. Quando os olhos se ajustaram àquela nova luminosidade, percebeu que não estava mais no mundo visível. Estava num mundo novo, que lhe permitia olhar sem ser interrogada, que lhe permitia ser para dentro. Ficou alguns minutos contemplando aquele mundo e não reconheceu ninguém, nem nada - um daqueles momentos do novo em que a gente tem que dar uma pausa para tanta informação que vem chegando. Ficou um pouco atordoada. Fechou os olhos novamente e apertou-os com força - e voltou.

O quarto do hospital era o mesmo, os sons do monitores continuavam apitando e a enfermeira de plantão acabara de sair. Para onde tinha ido? Que lugar era aquele que ela podia visitar?
Era já quase hora do jantar - tinha que ir até a cantina comer aquela comida pálida, mas que para ela não fazia diferença ser pálida ou ser rica em cores e vitaminas - tudo tinha o mesmo gosto de metal, de dor... pela primeira vez não queria ir jantar sozinha. Sentia uma necessidade de companhia - a experiência do mundo desconhecido, sem nome, sem referência, talvez fosse a causa dessa sentimentalidade social.



Tuesday, July 5, 2011

Uma coisa inventada

já nem lembrava mais que coisa era aquela de ser feliz...
As horas eram passadas de olho no outro que insistia em não viver mais
e por isso, ela também, já não vivia mais - só se deixava passar:
pelas portas, vitrinas, janelas, salas, igrejas, cinemas, escolas... mas não estava em nenhum desses lugares. Estava ausente de si e presa num botão de alguma flor que esqueceu de abrir...



Por isso, às vezes era invisível - era um dom raro e, de certa forma, alienante. Não escolheu o dom, não treinou para ele - apenas recebeu-o numa dessas tardes do nada em que os passantes vão apressados nos seus pensamentos de encerrar o dia - e ela viu que no seu esquecimento de ser, no seu passo de valsa triste, as pessoas quase que a atravessavam, sem olhar, sem ver, sem escutar - era fluida e inexistente!

Utilizava a invisibilidade quase todos os dias - assim não era importunada com perguntas inconvenientes em momentos sociais (que, de certo, não escolhia, mas ia). Realizou num desses momentos de invisibilidade que continuava sendo incomodada - por seus olhos que continuavam vendo. Via demais, sempre viu! Via tudo que era para se ver e não se ver. Via o pensamento de todo mundo - não era leitura, era mais um cineminha ora muito tedioso, ora muito intenso... acho que vinha com o dom da invisibilidade. O fato é que ver era muitas vezes um aborrecimento dos olhos! Então começou a fechá-los, para sentir a invisibilidade em tudo.